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Amor, sexo e outras coisas de que as princesas não falam.


Cresci a pensar que era feia.

 

Nunca fui do grupo mais popular do liceu, usava óculos, tinha umas sobrancelhas selvagens e uns quantos quilos a mais.

Conformei-me com isso e habituei-me a não receber atenção do sexo oposto.

 

Este ano descobri que sou "grossa". Pelo menos esse tem sido o adjectivo que me tem sido atribuido, mais do que uma vez, por mais do que uma pessoa.

 

A questão é que durante os meus anos de transformação tive sempre indisponível: duas relações duradouras - uma de quatro e outra de três anos. De repente fico solteira e vejo-me rodeada de abutres. Ao que parece a minha simpatia é contagiante e há por aí muito menino que não sabe a diferença entre um sorriso inocente e um olhar sugestivo. 

 

Fiquei abismada: "Mas de onde é que isto vem?"

 

Amigos de longa data que afinal não me viam como um gajo. Amigos de amigos que sempre me tiveram debaixo de olho. Amigos novos, claramente com segundas intenções.

 

E não é que esta coisa da atenção sabe bem? Masturbadores de ego, como eu gosto de lhes chamar. O problema aqui é que cada um destes nobres cavaleiros ansiosos por entrarem no meu castelo têm, individualmente, características que me agradam e dou por mim a ter conversas comprometedoras com todos.

 

Não julguem a princesa. Nunca soube o que era isto do cortejo: as rosas, os jantares, entrar em discotecas sem pagar ou as constantes mensagens no telemóvel. 

 

O essencial aqui é manter a postura e ver qual dos cavaleiros tem a persistência suficiente para chegar a príncipe.

 

 

 

 

 

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Cinco meses. Passaram cinco meses.

O silêncio quem o quebrou fui eu, e quem o instaurou novamente também fui eu. Parecia-me inconcebível que depois de três anos de cumplicidade se conseguissem passar cinco meses sem cruzar caminhos, olhares ou palavras que não amargas.

Tentei manter a cordialidade, a meio do caminho pensei que já tinha feito o luto, mas esquecer uma pessoa é uma coisa, e vê-la seguir em frente é outra.

 

Mais uma vez respirei fundo, ri-me de mim própria e cortei-o pela raiz. Até agora o amor não me tinha corrido mal. Senti-me estúpida. É tão fácil dar tudo no amor que nos esquecemos de receber. Quando recebemos o inesperado é como se nos passassem um atestado de burrice.

 

“Não consigo ser só teu amigo. Não consigo deixar de te ver como minha namorada.” Palavras que ecoam na minha cabeça e que fazem ricochete com outras que contradizem “Não consigo olhar para ti na cara, não consigo ter uma conversa contigo.”

 

Vesti a atitude. Desisti de lutar e ironicamente foi aí que comecei a ganhar. Troquei o amor pelo sexo. Já que o primeiro está tão desvalorizado quanto o segundo, para quê darmo-nos ao trabalho?

 

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- "Tu fodeste 3 gajos?" - perguntou-me...

Não ouvi, nem vi, mas tenho a certeza que o pronunciou com repugna e frieza, como quem acaba de ser brutalmente ofendido e riposta com a simples arrogância do desprezo.

 

Ri-me. Não o consegui levar a sério. A sua incredibilidade soara-me tão inocente quanto ridícula. 

- "Mas tu és uma princesa" - continuou...

Tive que o corrigir: "ERA. Era uma princesa." 

 

A princesa morreu no dia em que ele decidiu roubar-lhe a coroa e o coração. Rasgou-lhe o vestido sem dó, sem que ela sequer o visse. Trocou a realeza pela anarquia, afinal, a vida boémia era muito mais aliciante.

Fiquei a olhar para as ásperas palavras de nojo e desrespeito que continuaram a surgir no ecrã.

Achei inacreditável a fraca noção que ele tinha das consequências dos seus próprios actos.

 

Não resisti e entrei naquele jogo de palavras, deixando que estas fossem as minhas últimas: "Quem fodeu a princesa, foste tu!"

 

A princesa vestiu umas calças de cabedal, carregou no eyeliner, acendeu um cigarro e fez-se à vida.

 

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